Jay Rocker
“No language, just sound, that’s all we need know, to synchronise
love to the beat of the show. And we could dance.”
(Joy Division – Transmission)
INTRODUÇÃO
O texto em questão, faz parte do livro TEORIAS DO RÁDIO: TEXTOS E CONTEXTOS (organizado por Eduardo Meditsch e lançado pela editora Insular em 2005), seu nome é MILHÕES E MILHÕES DE ALICES NO AR, e foi escrito pelo filósofo francês Pierre-Félix Guattari, mais conhecido como Félix Guattari, que trata do Movimento das Rádios Livres, suas funções e os desejos de que as ondas pudessem ser transmitidas de forma simples e direta.
Então, vamos falar um pouquinho do grande Félix Guattari, que nasceu em Villeneuve-les-Sablons, Olse em 30/04/1930 e faleceu em 29/08/1992 em Cour-Cheverny e além de ter escrito Milhões e milhões de Alices no Ar, também tem em seu currículo os destaques:
- Revolução Molecular
- O Anti Édipo
- Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia
- Caosmose; Um novo paradigma estético
- Kafka: Para uma literatura menor
- Rizoma
A influencia de Félix Guattari pode ser sentida na musica, em composições como “We want the airwaves” (Ramones), “Transmission” (Joy Division), “Radio Clash” (The Clash), “Radio Four” (P.I.L.), “Radio, Radio” (Elvis Costello), entre outras.
Uma das produções do cinema nacional que também aborda o tema, é o Curta “Queremos as ondas no ar”, dirigido por Francisco Cesar Filho e Tata Amaral, gravado em 1986 e segundo sua sinopse “É um filme panfleto pela liberdade nas telecomunicações e dedicado a todas as rádios livres e televisões comunitárias do mundo”.
Graças ao teor convidativo e apimentado já no título do texto, busquei de uma forma sucinta, resumir o entendimento do capítulo, acrescido de informações complementares e dados bibliográficos que ajudaram a enriquecer um pouco mais o textos e as já interessantes idéias de Guattari.
“Perigo iminente. Atenção, a menor linha de fuga pode fazer explodir tudo. Vigilância especial aos pequenos grupos perversos pulsando palavras, inventando frases, atitudes suscetíveis de contaminar populações inteiras. Neutralizar prioritariamente todos aqueles que poderiam ter acesso a uma antena.”
(Felix Guatarri)
MILHÕES E MILHÕES DE ALICES NO AR – FÉLIX GUATTARI
O movimento das rádios livres iniciou-se em 1975 na Itália, com o intuito de invadir o monopólio estatal das telecomunicações, através de transmissões de rádios ilegais ou não autorizadas. Nasceu no cume de movimentos políticos e culturais contestatórios e passou a estimular as pessoas a passar da condição ouvintes passivos para a de agentes ativos de seus discursos e a colocar no ar as suas idéias, poesias, manifestos, seus prazeres, as suas músicas preferidas e tudo aquilo que viesse de sua vontade própria, sem a necessidade de autorização para essas transmissões.
Uma vez que as faixas de onda são consideradas propriedade coletiva, cabe à coletividade usufruir delas.
A rádio mais importante desse movimento é a Radio Alice, de Bolonha (Itália), que iniciou suas atividades em janeiro de 1976, como um “braço” do grupo A/Travesso, grupo político responsável por reuniões públicas, atividades comunitárias, festas, uma revista periódica e encontros diários e informais na Piazza Maggiore. A Rádio Alice ficou caracterizada pela sua recusa em assumir uma postura político partidária designada nos termos comuns e por trazer a tona, a discussão social de temas que até então eram tidos como Tabus, como: Sexo, corpo, musica independente, desejo, preguiça, prazer, força proletária e mesclando com uma certa freqüência as ações políticas com valores estéticos.
Bolonha se tornou palco de uma grande crise universitária em março de 1977, que gerou um grande e violento conflito entre estudantes e a força policial da cidade, o que resultou num saldo de uma pessoa morta e várias outras feridas. Nesse estopim, a Radio Alice transmitia noticias ao vivo do conflito, incluindo depoimentos por telefone dos próprios estudantes e de participantes e membros da rádio que mantinham o contato total direto do campo de batalha. Com essa ação, a rádio passa então a desempenhar um papel estratégico para a revolução estudantil, onde ela alerta todas as ações e deslocamentos da força policial e os focos de repressão, enquanto incitava a população a aderirem a manifestação, apoiar os estudantes e dar cobertura as ações.
Devido a essas ações, a rádio foi atacada e invadida pela tropa policial e os seus responsáveis foram presos e processados, tudo porque o Estado considerou intolerável a intervenção da rádio nas manifestações. O mais interessante, foi o fato toda a invasão ter sido transmitida na integra, ao vivo, do começo ao fim.
Tanto nas rádios quanto nas TVs, a “inchação burocrática” (termo usado por Félix Guattari) é de tamanho incrivelmente grande, gerada pelos órgãos de transmissão, criando-se uma máquina que segundo Guattari, é um verdadeiro “monstro burocrático”, que no início reunia apenas uma ínfima minoria.
Guattari diz em seus textos que “O pessoal das rádios livres eram um bando de loucos, um pouco como D. Quixote atacando o grandes gigantes do monopólio da rádios”. O fenômeno das rádios piratas rapidamente ganhou força, produzindo sobre a grande mídia, um estrondoso impacto. Depois “esse pequeno grupo de camaradas, diretamente inspirados pelos italianos”, viu sua pequena iniciativa estendendo-se por toda a França. “Muitas vezes, duas ou três pessoas colocavam os equipamentos em uma cozinha e começavam a emitir”.
O cartunista italiano Franco Bonvicinni (1941-1995), também conhecido como Bonvi, interrompe a transmissão de um dos programas da Rádio Alice em 11 de março de 1977, para descrever em primeira mão, ao vivo e direto de seu apartamento, o conflito entre estudantes e manifestantes. Seu relato lembrava o calor de um comentarista de futebol enquanto seu time estava em campo. Bonvi não tinha nenhuma ligação partidária.
Segundo Guattari, a utilização da mídia rádio é totalmente diferente da rádio livre e pode-se traçar uma teoria não só para o rádio, mas principalmente para aquele Rádio do Movimento Livre. Ele ajuíza que não se trata de fazer igual, melhor ou pior que as rádios dominantes, é não seguir a mesma direção e encontrar uma outra forma de uso, outra relação de escuta, outra forma de feedback e de se fazer ouvir e falar numa escala menor, para línguas menores, promovendo um determinado tipo de criação que não poderia surgir em nenhum outro lugar que não fosse de forma livre e independente como os ambientes em que se transformavam as rádios livres.
CONCLUSÃO
Milhões e milhões de Alices no ar, pode ser considerado como um texto que representa muito bem a participação e o pensamento de Felix Guattari no Movimento das Rádios Livres no continente europeu.
O autor revela suas teorias sobre revolução “Molar e molecular” na forma de textos apresentados pelas rádios, porém um outro texto de Guattari, no entanto, faz
uma reflexão sobre o contexto de existência das rádios livres, ao mesmo tempo em que traça uma perspectiva entendida pelo autor como uma direção a uma era pós-mídia, tendo como embrião, as rádios livres.
Esse texto é também o prefácio do livro Rádios livres: a reforma agrária no ar (Machado, Magri, Masagão, 1987) que fala das revoluções midiáticas preparadas por novas tecnologias de informática e que representa uma visão de futuro sobre o que, em parte, começou a ocorrer quase 20 anos depois da publicação do texto, cujas condições merecem uma reflexão mais detalhada.
Assim como a musica, o cinema, a dança, a imprensa livre e tantos outros meios “marginais” de arte e comunicação, a rádio livre prova que qualquer pessoa tem o poder de fazer e transmitir a comunicação de forma simples, direta e sem rabo preso com instituições e grandes monopólios da industria das rádios.
E como já cantava Joey Ramone: “We want the airwaves” (The Ramones – We Want The Airwaves, 1979)
Referências bibliográficas
MEDITSCH, Eduardo (Org.). Teorias do Rádio: textos e Contextos Vol 1. Florianópolis; Insular, 2005.
MACHADO, Arlindo; MAGRI, Celso; MASAGÃO, Marcelo (Orgs.). Rádios livres. A reforma agrária no ar. São Paulo: Brasiliense, 1987.
RÁDIO ALICE, Site Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Radio_Alice
RÁDIO ALICE WEBSITE: http://www.radioalice.org
FRANCO BONVICINNI WEBSITE: http://www.bonvi.it
MULTITUDES, Félix Guattari, Web site: http://multitudes.samizdat.net/_Guattari-Felix_.html
QUEREMOS AS ONDAS NO AR: http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1101



























































