Jay Rocker

Estávamos em 1982, o país mergulhado na ditadura e a repressão comendo solto. Pessoas eram presas por qualquer motivo e ser punk era um desses. Enquanto isso, punks do ABC e punks de São Paulo brigavam pelo simples fato de serem de localidades diferentes. Não importava se a pessoa também era punk, o que realmente importava é que ela não era do “pedaço”.
Com o intuito de unir e acabar essas brigas entre punks, foi surgindo uma ideia de um grande festival que reunisse bandas do ABC e da capital paulista e assim transformar o movimento punk em um só e não em subdivisões que estavam matando a cada dia mais. Não bastasse você se preocupar em não ser abordado pela polícia, tinha o fato de você não ser encontrado por outros punks.
Não vivi essa época de 30 anos atrás, mas conheço algumas pessoas que estavam lá e atestam essas versões. Fico pensando, se no fim dos anos 80 (que presenciei) já era uma coisa meio perigosa ser punk ou de qualquer tribo roqueira do país, imagina então lá no comecinho?
Para tentar unir as regiões, alguns punks idealizaram o festival O COMEÇO DO FIM DO MUNDO, que rolou nos dias 27 e 28 de novembro de 1982 e foi capitaneado por Antonio Bivar (autor do Livro O que é Punk) e Redson Pozzi (Cólera) e teve como palco principal o SESC Pompéia. Segundo depoimentos de pessoas da época, a galera do ABC ainda achava que era alguma armadilha dos “punks da city” para poder pegar eles. Realmente a coisa estava feia e era punk matando punk.
O evento contou com exposições de diversos materiais da cultura punk e com a apresentação de 20 bandas, dentre elas, algumas que ainda continuam na ativa como: DZK (na época se chamava Decadência Social), Hino Mortal, Inocentes, Lixomania (que seria o embrião do 365), Olho Seco, Ratos de Porão e Ulster. Também estaria na ativa a banda Cólera, que teve seu fundador Redson falecido em setembro do ano passado.
Além dessas bandas, o evento contou com a presença das bandas: Desertores, Dose Brutal, Estado de Coma, Extermínio, Fogo Cruzado, Juízo Final, M-19, Negligentes, Neuróticos, Passeatas, Psykóze e Suburbanos.
O evento foi marcado pela união punk e pelo apoio de público e organizadores que se fundiam, mas em contrapartida, também ocorreram algumas brigas e atritos que ocasionaram na invasão do SESC pela polícia.
As bandas que tocaram no evento tiveram uma musica gravada que fez parte do álbum com o mesmo nome do festival e por motivos de desavenças entre organizadores e a banda Ulster, a banda acabou não entrando na prensagem do disco. Anos depois, quando Fábio Sampaio (Olho Seco) lançou o álbum por seu selo, a Ulster entrou como bônus.

19 anos depois, já em 2001, veio a comemoração do festival, dessa vez com o nome de A UM PASSO DO FIM DO MUNDO, que ocorreu no Tendal da Lapa nos dias 24 e 25 de novembro e dessa vez com mais que o dobro das bandas do primeiro festival e com uma estrutura maior. Ainda capitaneado por Bivar e pelo incansável Ariel (Atual Restos de Nada/Invasores de Cérebros) que na época era vocalista da banda Inocentes. Falando em Inocentes, embora a banda estivesse em atividade, não fez parte dessa que seria uma espécie de continuação d’O Começo do Fim do Mundo.
Dessa vez o cast foi composto pelas bandas: Ação Direta, Agrotóxico, Armagedom, Atitude, Autogestão, Blind Pigs, Calibre 12, Colisão Social, Cólera, Condutores da Revolta, Condutores de Cadáver, Contraversão, Cosmogonia, Deserdados, Distrimia, DZK, Esgoto, Excluídos, Excomungados, FDS, Fecaloma, Flicts, Food4Life, General Bacon, Grinders, Histeria Coletiva, Holly Tree, Indigesto, Infect, Invasores de Cérebros, Kolapso 77, Lambrusco Kids, Lixo Suburbano, Lokaut, Mandrovás, Narcose, 88 Não!, Olho Seco, Passeatas, Pátria Armada, Phobia, Restos de Nada, Rrraict Tuff, Senso Críticos, Stoosh, Sick Terror, Subsistência, Suco Gástrico, Ulster, Underboyz, Voz Ativa e Zumbis do Espaço.
Houve um princípio de tumulto quando jogaram uma pedra que acertou no Henrike, vocalista da banda Blind Pigs, enquanto eles executavam seu set. Um momento muito chato que foi gerado por uma única pessoa e que atrapalhou a diversão de várias outras que foram para ver a banda. Atitudes assim são lamentáveis e voltou a acontecer no segundo dia da festa com a banda Holly Tree, que se não foram agredidos fisicamente, tiveram que tocar ao som de pessoas os xingando de boyzinhos, filhos de papai, punks de shopping e etc. Mas também tiveram momentos memoráveis e apresentações brilhantes (para mim) como: Armagedom, Atitude, Cólera, Condutores de Cadáver, Cosmogonia, DZK, Grinders, Lambrusco Kids, Olho Seco, Restos de Nada, Sick Terror, Underboyz, e Zumbis do Espaço, que fizeram as melhores apresentações em minha opinião, sem desmerecer as outras participantes, até porque dois dias com palcos simultâneos e com tanta banda legal, fica quase impossível você acompanhar todas como gostaria. Uma ou outra treta acabava saindo, mas também teve momentos de punks que tinham treta nos anos 80 chegarem e acertarem tudo, com os filhos presentes e assumirem o quanto foram idiotas. Isso foi o que mais valeu a pena no festival.

E assim passamos para 2002, depois do começo do fim do mundo e de estar a um passo do fim do mundo, chegava a data d’O FIM DO MUNDO, mais um festival punk que entrava para formar a trilogia dos grandes festivais que celebravam O Começo do Fim do Mundo, agora já completando seus 20 anos e com muita lenha para queimar.
Esse 2002 era um ano quem que várias bandas do underground estavam tomando de assalto as rádios e tudo prometia ser bem diferente. A organização foi ainda maior, as bandas agora são 60, divididas em oito dias que além de som teria mostras de vídeos, debates, exposições e diversos lançamentos que iam de livros a zines, passando por bandas e seus novos álbuns.
Quem segurou os amplis pra galera dessa vez foram as bandas: Ação Direta, Ácratas, Agrotóxico, Antropófagos, Armagedon, Ato Público, Calibre 12, Carne Moída, Cirrose Cerebral, Cólera, Condutores de Cadáver, Contra Ataque, Colisão Social, CPL, Deserdados, Distrimia, DZK, Esgoto, Esquizofrenia, Eutanásia, Excomungados, Fecaloma, Flicts, Fogo Cruzado, Fungos, General Bacon, Grind Day, Hino Mortal, Holly Tree, Histeria Coletiva, Íbis, Indigesto, Infect, Kolapso 77, Lambrusco Kids, Lixomania, Lixo Suburbano, Lokaut, Los Dingos, Mandrovás, Menstruação Anárquika, Mingau Matador, Narcose, 88 Não!, Os Cachorros, Os Excluídos, Pacto Social, Passeatas, Pátria Armada, Phobia, Raticida, Razão Social, Restos de Nada, Rrraict Tuff, R.U.D.E.S., Scória, Stoosh, Subviventes, Suco Gástrico, Terceira Classe, Trassas, Ulster, Voz Ativa e Zé Galinha Company.
Esse foi o famoso evento em que o Supla também foi agredido pelo pessoal em meio ao show do Holly Tree. Não vi o que aconteceu e nem como aconteceu, então limito-me apenas a informar o ocorrido. Por causa do trampo que tinha na época, consegui ir apenas a um dia do evento, que foi o segundo dia, o domingo que teve Cólera e como sempre foi um grande show. Na verdade eu vi Cólera e segui para trampar. Como diria o Ratos de Porão “Essa vida de peão!”.
Vale citar que esse evento trouxe bandas de outros estados, como Paraná, Rio de Janeiro, Pernambuco e Minas Gerais e a banda R.U.D.E.S. (Raciocínio Unanime Declarando Eficiencias Sociais) é a mesma banda Rudes de Barueri, que na época tinha o lendário Marcio (Ex-Hard Life) nos vocais e atendiam por esse nome.
E assim seria a trilogia do Fim do mundo. Isso se não houvesse um porém, ou melhor, um ENFIM nesses 10 anos que se passaram após o último festival.

Agora já se passam 30 anos do festival O COMEÇO DO FIM DO MUNDO, que retorna para seu berço, o lendário SESC Pompéia e em três dias de eventos comemorativos aos 30 anos do festival, surge-nos O FIM DO MUNDO, ENFIM!, que dessa vez terá o menor cast da história, porém, muita nata para a galera. O festival acontece de 29/03 a 01/04 e contará com as bandas: Agrotóxico, Ataque 77, Cólera, Condutores de Cadáver, Devotos, Flicts, Garotos Podres, Inocentes, Invasores de Cérebros, Lixomania, Olho Seco, Os Excluídos, Questions, Ratos de Porão e Restos de Nada.
Os ingressos custam de R$ 4,00 a R$ 16,00 e os três primeiros dias são proibidos para menores de 18 anos.
A última noite será interessante, pois a banda Cólera sobe ao palco com Wendel (Sociedade Sem Hino) que substituirá o Redson em frente a banda. Também contará com a presença dos Hermanos argentinos do Ataque 77. Enfim, além de um grande evento é uma grande chance de conhecer um pouco da história do punk nacional e ainda ver as bandas Cólera, Inocentes, Olho Seco e Ratos de Porão, que estiveram presentes no primeiro festival, lá de 1982 do começo do texto, lembra? E não posso deixar passar em branco que Ariel esteve presente e sempre um dos cabeças dos quatro eventos, então, essa é a oportunidade de você que não viu, conhecer uma das lendas do punk tupiniquim.
Corre lá e vá pogar!
Maiores informações em: http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/busca.cfm?conjunto_id=9611